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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sentimentos que inspiram as grandes igrejas da Idade Média

Capela do College de Exeter, Grã-Bretanha.
Capela do College de Exeter, Grã-Bretanha.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Comparando as obras arquitetônicas dos últimos três séculos com as da Idade Média, a maravilhosa superioridade desta última deve impressionar todo observador atento, escreveu o célebre criador do Big Ben A.W.Pugin.

A mente é levada naturalmente a refletir sobre as causas que produziram esta imensa mudança, e esforçar-se para rastrear a queda de gosto arquitetônico, a partir do período de seu primeiro declínio até os dias atuais.

O grande teste de beleza arquitetônica é a adequação do projeto ao fim a que se destina.

O estilo de um edifício deve corresponder ao uso para o qual foi criado e o espectador deve perceber logo de vez o objetivo para o qual foi erguido.

Agindo sobre este princípio, diferentes nações deram origem a muito variados estilos de arquitetura, cada um adequado a seu clima, costumes e religião.

Os edifícios religiosos estão entre os monumentos mais esplêndidos e duradouros. Por isso, não pode haver dúvida de que diferentes ideias e cerimônias religiosas tiveram de longe a maior influência na formação dos vários estilos na arquitetura.

Quanto mais intimamente compararmos os templos das nações pagãs, com seus ritos religiosos e mitologias, mais estaremos satisfeitos com a verdade desta afirmação.

Neles todos os ornamentos, cada detalhe tinha uma importância mística.

A pirâmide e obelisco da arquitetura egípcia, seus capiteis em flor de loto, suas esfinges gigantescas e seus múltiplos hieróglifos, não eram meras combinações extravagantes de arquitetura e ornamentos, mas emblemas da filosofia e mitologia dessa nação.

Cada elemento da arquitetura gótica tem um significado místico.
Catedral de Ely, Grã-Bretanha.
Na arquitetura clássica, novamente, não variaram apenas as formas dos templos dedicados a diferentes divindades, mas certos capiteis e ordens de arquitetura eram peculiares a cada um; e os ornamentos com forma de folhagem dos frisos eram simbólicos.

O mesmo princípio da arquitetura resultante da crença religiosa, pode ser traçado a partir das cavernas de Elora, às ruínas druídicas de Stonehenge e Avebury.

Em todas estas obras de antiguidade pagã, encontraremos sempre que o plano e a decoração do edifício são místicos e emblemáticos.

Há de se supor que só o cristianismo, com suas verdades sublimes, com seus estupendos mistérios, deve ser deficiente a este respeito, e não possuir uma arquitetura simbólica para seus templos que incorpore suas doutrinas e instrua seus filhos?

Certamente não.

E não é só isso: do cristianismo surgiu uma arquitetura tão gloriosa, tão sublime, tão perfeita, que todas as produções do antigo paganismo afundam, quando comparadas, ao nível dos sistemas falsos e corruptos pelos quais foram originadas.

A arquitetura cristã reivindica formas muito mais elevadas da nossa admiração do que a mera beleza ou a antiguidade.

A beleza pode ser considerada como uma questão de opinião.

A antiguidade não é prova de excelência.

Mas somente na arquitetura cristã encontramos encarnada a fé do cristianismo e a ilustração de suas práticas.

As três grandes doutrinas da redenção do homem pelo sacrifício de Nosso Senhor na Cruz; das três pessoas iguais unidas num só Deus; e da ressurreição dos mortos, são a base da arquitetura cristã.

A primeira – a Cruz – não é apenas o próprio plano e a forma de uma igreja católica, mas ela coroa cada torre e duas águas, e é impressa como um selo de fé no próprio mobiliário do altar.

As formas e estilo do gótico falam dos grandes mistérios da Fé. Catedral de Wells, Grã-Bretanha.
As formas e estilo do gótico falam dos grandes mistérios da Fé.
Catedral de Wells, Grã-Bretanha.
A segunda doutrina – a Trinidade – está totalmente desenvolvida na forma triangular e disposição dos arcos, rendilhado, e até mesmo subdivisões dos próprios edifícios.

A terceira doutrina – a Ressurreição dos mortos – está muito bem exemplificada pela grande altura das linhas verticais, que foram consideradas pelos cristãos, a partir do período mais antigo, como o emblema da ressurreição.

De acordo com antiga tradição, os fiéis oravam numa posição ereta, tanto aos domingos e durante o tempo pascal, em alusão a este grande mistério.

Isso é mencionado por Tertuliano e por Santo Agostinho. Stantes oramus, quod est signum Resurrectionis; e, no último Concílio de Nisa, foi proibido de se ajoelhar aos domingos, ou desde a Páscoa até Pentecostes.

Com o princípio vertical de fundo, sendo um emblema reconhecido da ressurreição dos mortos, podemos facilmente explicar a adoção do arco ogival dos cristãos, criado com o propósito de ganhar maior altura dentro de uma limitada largura.

Eu digo adoção, porque a mera forma do arco ogival é de grande antiguidade; e o próprio Euclides deve ter estado perfeitamente familiarizado com ele. Mas não houve nada que o pusesse em uso, até que o princípio vertical foi afirmado.

As igrejas cristãs tinham sido previamente construídas com o objetivo de altura interna: o trifório e o clerestório já existiam nas igrejas dos saxões.

Malmesbury: o clerestório é o nível superior com janelas,
o trifório é a galeria abaixo do clerestório.
Nota: Trifório é uma galeria estreita, aberta sobre o andar das arcadas ou das tribunas e sob o clerestório nas paredes laterais da nave principal nas igrejas ou catedrais medievais.

Esta galeria sem janelas faz a ligação estética entre os outros elementos do conjunto dando beleza à parede que de outro modo ficaria vazia e fechada para o exterior.

No estilo gótico novos progressos permitiram instalar vitrais na zona do trifório.

Clerestório é a parte da parede da nave iluminada naturalmente por um conjunto de janelas laterais do andar superior das igrejas medievais do estilo gótico.

De uma forma geral, se refere à fiada de janelas altas, dispostas sobre um telhado adjacente. Fonte : verbete Trifório, Wikipedia.

Elevados como eram estes edifícios, quando comparados com os templos chatos e deprimidos da antiguidade clássica, a introdução do arco ogival permitiu aos construtores obter quase o dobro da altitude com a mesma largura.

As características e detalhes todos das igrejas erguidas durante a Idade Média não expõem os triunfos da verdade cristã?

Como a própria religião, as fundamentos das igrejas góticas estão na Cruz, e a partir dEla sobem para o céu em majestade e glória.

A nave elevada e o coro, com torres ainda mais elevadas, coroada por aglomerados de pináculos e torres, todas apontadas para o céu, são os mais belos emblemas da resplandecente esperança católica e a derrota vergonhosa do paganismo.

A Cruz, exaltada em glória – símbolo de misericórdia e perdão – coroando o edifício sagrado, o interpõe entre a ira de Deus e os pecados da sociedade.




Pugin, o arquiteto de Deus


Augustus Welby Northmore Pugin, nascido em Londres em 1º de Março de 1812, tinha apenas 24 anos quando publicou Contrastes.

O autor ofereceu nele todo um programa que redefiniu a arquitetura como uma força moral, imbuída de significado político e religioso.

A mensagem de Pugin era simples: se algo está errado em nossas cidades, algo está errado conosco, sendo necessárias reformas na sociedade e na arquitetura.

Em Contrastes ele defendeu um renascer da arquitetura gótica medieval, e com ela um retorno à fé e às estruturas sociais da Idade Média.

Pugin propôs-se reconstruir a Grã-Bretanha através de uma Cristandade gótica católica.

Foi uma cruzada inimaginável, mas o sucesso foi maior do que o esperado. Quando fez 30 anos, já havia construído 22 igrejas, três catedrais, três conventos, escolas e um mosteiro cisterciense.

Pugin queria reformar a sociedade levando-a de volta a uma hierarquia benigna, a um medievalismo no qual cada classe poderia olhar para a que lhe era superior e dela receber apoio, enquanto os de cima aceitavam a responsabilidade de proteger os que estavam embaixo.

O Big Ben de Londres é a mais genial obra neogótica de Pugin
O Big Ben de Londres é a mais genial obra neogótica de Pugin
Ele forneceu elementos para o projeto vencedor do Parlamento de Londres onde desenhou alguns de seus mais admirados ambientes, como o interior da Câmara dos Lordes.

Seu último projeto, feito em 1852, ficou o mais famoso: a torre do relógio do Palácio de Westminster, o celebérrimo Big Ben. Ele morreu aos 40 anos de idade.





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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Edifícios nobres da Idade Média
ou prédios de gosto decadente de hoje?

Pugin: o estilo gótico exprime as verdades do culto católico. Igreja de São Domingos em Londres.
Pugin: o estilo gótico exprime as verdades do culto católico.
Igreja de São Domingos em Londres.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Em seu histórico ensaio “Contrastes”, o arquiteto A. W. Pugin que desenhou o Big Ben de Londres, faz um paralelismo entre os edifícios nobres da Idade Média, notadamente os religiosos, e os modernos prédios de gosto decadente que predominam hoje.

Eis alguns excertos livres:


A arquitetura influencia a fé dos fiéis que frequentam o templo. Isso é particularmente sensível nas igrejas católicas onde todos os elementos arquitetônicos são concebidos em função dos ensinamentos e da liturgia da Igreja.

Nelas a bênção da graça divina se torna como que sensível, toca os corações falando uma linguagem toda especial e como que pessoal para cada um.

Essa influencia da graça de Deus está ligada muitas e muitas vezes a esta ou aquela imagem, a este ou aquele vitral.

É porque esses elementos artísticos transmitem um mundo de imponderáveis, de valores e sentimentos inefáveis.

Foi por isso que o protestantismo logo se assanhou contra a arquitetura e a arte católica, seus templos, imagens e símbolos.

Entretanto, seria errado achar que o protestantismo foi a causa primária do apagamento da fé na Inglaterra.

Houve numa realidade anterior: o deteriorado estado da fé em toda a Europa no século XV.

Nela deve ser apontada a verdadeira origem do Renascimento dos princípios pagãos e sua consequência: a aparição de crenças protestantes.

Catedral de York, Grã-Bretanha, foto David Iliff
Catedral de York, Grã-Bretanha, foto David Iliff
Nesse século a arquitetura do Renascimento progrediu negando os princípios católicos não na doutrina, mas na arte, admirando até a adoração os estilos do paganismo antigo.

Essa tendência cultural levou os homens a não gostar, e, finalmente, abandonar os princípios religiosos católicos.

Para esses dois monstros, a Renascença neopagã e o protestantismo, terem deitado raízes era preciso que a religião católica estivesse extremamente doente.

Não podemos imaginar um Santo Ambrósio ou um São Crisóstomo mandando pintar cenas de bacanais e ilustrações de fábulas de Ovídio para enfeitar suas residências episcopais, nem São Beda ou São Cutberto se tornarem calvinistas.

Se em face de Henrique VIII, que excedeu Nero na tirania e na crueldade, o espírito católico não tivesse estado numa vazante extremamente baixa, a Igreja da Inglaterra, em vez de sucumbir, teria crescido em glória e pureza, como sempre fizera por efeito da perseguição nos dias de fé viva.

É evidente que a Igreja da Inglaterra tinha miseravelmente degenerado.

A chamada Reforma protestante é agora considerada por muitos homens de instrução e de mentes sem preconceitos como um flagelo terrível, permitido pela Providência divina como castigo pela fé deteriorada.

Aqueles por quem foi praticada agora são considerados à luz da verdade de astutos saqueadores da Igreja e intrigantes políticos, em vez de santos mártires e apóstolos modernos.

Catedral de Ripon, Grã-Bretanha.
Catedral de Ripon, Grã-Bretanha.
É, de facto, quase impossível para qualquer pessoa sincera ver todos os poderes episcopais e eclesiásticos completamente controlados a bel prazer por um tribunal leigo, sem condenar os homens que na origem traíram a Igreja.

E sem perceber que em nosso dividido e dispersado Estado, como consequência da Reforma, estamos sofrendo severamente pelos pecados de nossos pais.

Essa é a única visão realmente consistente que se pode formar a respeito do assunto.

A Igreja da Inglaterra não foi atacada e derrubada por um inimigo estrangeiro.

Ela foi consumida pela decadência interna.

Seus privilégios e suas abadias foram entregues por liquefação e compromisso dos eclesiásticos nominalmente católicos. Suas receitas e seus gloriosos ornamentos foram despojados e apropriados pelos assim chamados nobres católicos.

Ambos, o protestantismo e o paganismo renascentista foram gerados por homens indignos do nome de católicos.

O primeiro é, com efeito, uma consequência do último.

Por estranho que possa parecer, há uma grande conexão entre os jardins dos Medici, cheios de luxo pagão, e a pregação de igrejas evangélicas independentes que agora desfiguram a terra.

Ambos são totalmente opostos aos verdadeiros princípios católicos, e nenhum dos dois poderia ter existido se os princípios não tivessem decaído.

Catedral de Canterbury, Grã-Bretanha.
Catedral de Canterbury, Grã-Bretanha.
Savonarola [Ferrara, 21 de setembro de 1452 — Florença, 23 de maio de 1498], o monge dominicano, previu em seu primeiro sermão em Florença, a desolação prestes a cair sobre a Igreja.

E depois de retratar o terrível perigo que adviria da nova onda dos estilos clássicos e pagãos, que estavam começando a usurpar o lugar do sentimento e da arte cristã, ele exclamou:

“por vossa aplicação continuada a essas coisas, e vossa negligência das sublimes verdades da fé católica, vós envergonhareis da Cruz de Cristo, e vós vos embebereis do espírito orgulhoso de luxo e dos sentimentos de paganismo; até que, fracos na fé e nas boas obras, vós caireis em heresias, ou na própria infidelidade”.

Quem não pode ver essa terrível previsão cumprida na revolução religiosa desoladora do século XVI, à qual devemos o presente estado dividido de seitas religiosas no país?

O autor está completamente pronto para manter o princípio de contrastar excelência católica com a degeneração moderna.



Pugin, o arquiteto de Deus


Augustus Welby Northmore Pugin, nascido em Londres em 1º de Março de 1812, tinha apenas 24 anos quando publicou Contrastes.

O autor ofereceu nele todo um programa que redefiniu a arquitetura como uma força moral, imbuída de significado político e religioso.

A mensagem de Pugin era simples: se algo está errado em nossas cidades, algo está errado conosco, sendo necessárias reformas na sociedade e na arquitetura.

Em Contrastes ele defendeu um renascer da arquitetura gótica medieval, e com ela um retorno à fé e às estruturas sociais da Idade Média.

Pugin propôs-se reconstruir a Grã-Bretanha através de uma Cristandade gótica católica.

Foi uma cruzada inimaginável, mas o sucesso foi maior do que o esperado. Quando fez 30 anos, já havia construído 22 igrejas, três catedrais, três conventos, escolas e um mosteiro cisterciense.

Pugin queria reformar a sociedade levando-a de volta a uma hierarquia benigna, a um medievalismo no qual cada classe poderia olhar para a que lhe era superior e dela receber apoio, enquanto os de cima aceitavam a responsabilidade de proteger os que estavam embaixo.

Ele forneceu elementos para o projeto vencedor do Parlamento de Londres onde desenhou alguns de seus mais admirados ambientes, como o interior da Câmara dos Lordes.

Seu último projeto, feito em 1852, ficou o mais famoso: a torre do relógio do Palácio de Westminster, o celebérrimo Big Ben. Ele morreu aos 40 anos de idade.





GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A ciência dos números e a harmonia do universo no templo de suprema beleza

Relógio astronômico da catedral de Lund, Suécia
Relógio astronômico da catedral de Lund, Suécia
Luis Dufaur
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A construção das catedrais participa da ciência dos números, esses números que são a harmonia do mundo, e que foram consagrados pela liturgia católica.

0 3 é o algarismo da Trindade, algarismo divino por excelência, que reconduz tudo à unidade e representa as três virtudes teologais.

0 4 é o algarismo da matéria: dos quatro elementos; dos quatro temperamentos humanos; dos quatro evangelistas tradutores da palavra de Deus; das quatro virtudes cardeais, que devem ser praticadas pelo homem na condução da sua vida terrestre.

0 7, que alia o divino ao humano, é o algarismo de Cristo, e depois dele o algarismo do homem resgatado: os quatro temperamentos físicos unidos às três faculdades mentais (intelecto, sensibilidade, instinto).

Ao mesmo tempo, uma outra combinação de 3 e 4 dá 12, o algarismo do universo, dos doze meses do ano, dos doze signos do zodíaco, símbolo do ciclo universal.

O nosso sistema métrico não tomou em conta esses “números-chave”, mas deve-se observar que a atual numeração, um tanto abstrata e rudimentar, não conseguiu adaptar-se, por exemplo, às fases solares e lunares, e continua a ser suplantada em quase toda parte, nos campos, por medidas ao mesmo tempo mais simples e mais sábias.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A natureza refletida nas pedras e vitrais da catedral

Cena com elementos do campo num vitral da catedral de Chartres
Cena com elementos do campo num vitral da catedral de Chartres
Luis Dufaur
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Além dos temas de decoração propriamente religiosos — cenas bíblicas que mostram as correspondências do Novo Testamento com o Antigo, pormenores da vida da Virgem e dos Santos, quadros grandiosos do Juízo Final ou da Paixão de Cristo — os pintores e escultores tiraram largo partido do que a natureza lhes punha diante dos olhos.

Toda a flora e fauna do nosso país renascem sob o pincel ou o cinzel, com precisão e golpe de vista de um naturalista, aliados ao que a fantasia lhes sugeria.

Foi possível estudar nos pórticos das catedrais as diferentes espécies reproduzidas e descobrir flores e folhagens da Ilha de França: aqui em botão, lá em pleno desabrochar, acolá sob o aspecto recortado da folhagem outonal.

Utilizaram com igual à-vontade os motivos de decoração geométrica — folhagens, entrançados, animais estilizados — cujo modelo lhes havia sido fornecido pelo Oriente, e que os monges irlandeses tinham feito renascer com exuberância singular nas suas miniaturas.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

MILÃO: catedral no cerne da Igreja universal

Fachada
Luis Dufaur
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A catedral de Milão é uma tal obra de arte e tem uma tal importância na História da Igreja Universal que tudo o que toca nela afeta a Igreja Universal.

É uma catedral de uma cidade cuja importância envolve o bem geral da Igreja.

Mas ela não apareceu do nada. Ela de alguma maneira já nasceu nas almas dos primeiros cristãos.

Com efeito, desde o momento da descida do Espírito Santo em Pentecostes até o ponto mais alto da Idade Média, a grande linha geral da Igreja foi de um crescimento contínuo.

Embora houvesse fases de crise, de decadência, essas foram episódicas e sem reflexo na linha geral da História da Igreja.

Os declínios foram seguidos por progressos em que a Igreja cresceu muito em formosura.

Assim, o anseio que palpitava nas almas dos católicos das catacumbas acabou se explicitando enormemente na Idade Média.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A catedral e a luz imaterial do sacrifício litúrgico perfeito

Missa numa capela lateral de uma catedral
Missa numa capela lateral de uma catedral
Luis Dufaur
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O conhecimento geral da liturgia facilita a tarefa do artista, que se verga quase por instinto às suas exigências.

Assim, nos nossos dias o altar está a maior parte das vezes mais elevado, para permitir aos fiéis seguir com a vista as cerimônias.

Outrora, era sobretudo através do canto e das orações vocais que os fiéis a elas se associavam, donde o extremo cuidado com a acústica: alternância das arcadas, ordenação das abóbadas, etc.

Sobretudo há o problema da luz. Certas épocas preferiram igrejas sombrias, pois considerava-se que a obscuridade favorece o recolhimento.

Mas na Idade Média se amava a luz, e a grande preocupação foi ter santuários cada vez mais claros.

Pode-se dizer que todas as descobertas da técnica arquitetônica tenderam a possibilitar mais espaços livres na construção, para que as imensas vidraças pudessem deixar passar cada vez mais sol e iluminar sempre melhor o esplendor do ofício religioso.

Em Beauvais, por exemplo, a parede serve apenas para enquadrar as partes de vitral, e o faz com uma ligeireza assustadora, excessiva mesmo, já que o edifício nunca pôde ser continuado para além do transepto.

No entanto, mais ainda do que a beleza, a solidez é que era visada. Nada se compreendeu de uma catedral gótica antes de se saber que o volume de pedra enterrado no solo, para o trabalho das fundações, ultrapassa o da pedra erguida para o céu.

Sob essa aparente fragilidade, sustentando as gráceis colunetas e as flechas rendilhadas, esconde-se uma poderosa armação de pedra, obra paciente e robusta.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A catedral é um resumo de todas as artes,
a síntese visível da ordem da Criação

Basílica de Nossa Senhora, Cracóvia, Polônia.
Basílica de Nossa Senhora, Cracóvia, Polônia.
Luis Dufaur
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A expressão mais completa da arte medieval em França encontra-se na sua arquitetura, nas suas catedrais, onde quase todas as técnicas foram empregadas.

Existiu sem dúvida a arte profana, pois são numerosas as cenas alegóricas ou tiradas da Antiguidade.

Mais numerosos ainda os retratos, os quadros guerreiros, campestres ou idílicos, em que a natureza nunca está ausente.

Mas foi nas suas catedrais que ela pôs toda a sua alma.

Acontece — e não é por acaso — que a arquitetura medieval floresceu mais ainda em França do que em qualquer outra região.

Poucas das nossas aldeias escaparão à presença de algum vestígio dela, sob a forma por vezes muito humilde de um simples pórtico perdido no meio da alvenaria moderna, ou por vezes sob a forma de uma magnífica catedral, desproporcionada em relação à aglomeração que presentemente a circunda.

A serenidade um tanto maciça dos edifícios românicos é realçada por uma decoração agitada e turbulenta, com cenas de grandeza vertiginosa tiradas do Apocalipse, e banhadas ainda de influências orientais.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sob a aparente fantasia: poderosa sabedoria, síntese do universo

Ambulatório da catedral de Amiens, Foto David Iliff License CC-BY-SA 3 0
Ambulatório da catedral de Amiens.
Foto: David Iliff License CC-BY-SA 3 0
Luis Dufaur
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A nossa época, que se desembaraçou dos últimos restos de preconceitos clássicos, e na qual a influência dos dogmas da antiguidade é já nula, está em melhor posição do que qualquer outra para penetrar a arte da Idade Média.

Não passaria hoje pela cabeça de ninguém indignar-se com os camelos verdes do Psautier de Saint-Louis (Saltério de São Luís), e os artistas modernos fizeram-nos compreender que, para dar uma impressão de harmonia, a obra de arte deve ter em conta a geometria, e a decoração submeter-se à arquitetura.

Podemos redescobrir a arte medieval mais facilmente do que a literatura do mesmo tempo, pois podemos desfrutá-la diretamente.

Aprendemos a percorrer pedra por pedra, nas nossas catedrais e nos nossos museus, os seus vestígios dispersos pela Europa.

Os progressos da técnica fotográfica permitem-nos dar a conhecer as maravilhas das miniaturas inseridas nos manuscritos, que até aqui só alguns iniciados podiam apreciar.

Chega-se a restituir mesmo as suas cores, com rara fidelidade, o que se pode confirmar nas admiráveis publicações da revista Verve, as das Éditions du Chêne ou de Cluny, etc.

O que sobressai mais nitidamente na arte medieval é o seu caráter sintético.

Criações, cenas, personagens, monumentos, parecem ter surgido de um só jato, tal é o seu frêmito de vida, tão forte a expressão do sentimento ou da ação que pretendem traduzir.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A catedral

Sainte-Chapelle de Paris, relicário da Coroa de Espinhos e estátua de São Luís rei na cripta da Sainte-Chapelle
Sainte-Chapelle de Paris, relicário da Coroa de Espinhos
e estátua de São Luís rei na cripta da Sainte-Chapelle
Luis Dufaur
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No corre-corre de nossos dias tresloucados, façamos uma pausa.

Esqueçamos por alguns minutos o trabalho, as preocupações que nos assaltam, e façamos uma visita a uma catedral medieval.

A belíssima página que a seguir transcrevemos –– de Émile Male, um historiador francês de grande envergadura, especializado em história da arte — apresenta-se como um bálsamo para as feridas que em nossas almas abriu esta época na qual vivemos.

Ele nos fala da catedral medieval, especialmente a do século XIII, na França.

Temos a impressão de estar lendo um poema que faz voar nosso espírito para longe das maldições deste século: os horrores da luta de classes, o desvario a que se chegou a propósito dos chamados direitos humanos, as invejas, os escândalos que se atropelam uns aos outros, as perversões morais, o terrorismo, a contínua insegurança e tudo o mais.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Um primeiro vislumbre da arte gótica medieval,
no Santo Sepulcro!

Ressurreição, composição artística.
Ressurreição, composição artística.
Luis Dufaur
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Quem visse o Santo Sepulcro, escavado na rocha, sabendo que Nosso Senhor Jesus Cristo na sua humanidade ali esteve sepultado, teria certa impressão.

Em nossos dias, estando o sagrado lugar encimado por uma igreja (a Basílica do Santo Sepulcro) — portanto, em que todo o ambiente encontra-se mudado —, gostaríamos de saber que impressão causaria, antes da Basílica, aquele abençoado lugar.

Para isso, é legítimo fazer o que Santo Inácio de Loyola recomenda nos “Exercícios Espirituais”: a “composição de lugar”.

Reconstituir o local — o Sepulcro — e a cena da Ressurreição. Assim, vou imaginar que impressão eu teria se lá estivesse.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Catedral neogótica no coração da Ásia muçulmana
é “potente sinal de evangelização”

Nova catedral de Karaganda, Cazaquistão, Ásia Central. O bispo optou pelo estilo neogótico porque mais conforme com a sacralidade da casa de Deus.
Nova catedral de Karaganda, Cazaquistão, Ásia Central.
O bispo optou pelo estilo neogótico porque mais conforme com a sacralidade da casa de Deus.
Luis Dufaur
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Em 9 de setembro de 2012 foi consagrada a catedral da diocese de Karaganda, no Cazaquistão, em uma solene celebração presidida pelo Cardeal Angelo Sodano, decano do Colégio Cardinalício e Legado Pontifício para a consagração. O fato foi noticiado em seu momento pela agência Zenit

Em estilo neogótico, a catedral foi pensada e desejada pelos bispos D. Jan Pawel Lenga e D. Athanasius Schneider, então titular e auxiliar daquela diocese, respectivamente.

O Cazaquistão é um país esmagadoramente muçulmano no coração das estepes da imensa Ásia. Os católicos constituem uma minoria: 1 ou 2% da população.

Por que os bispos escolheram esse estilo?

quarta-feira, 29 de março de 2017

Catedral de São Marcos, VENEZA:
“Igreja Católica é isto! Ó Igreja Católica!”

Luis Dufaur
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É noite em Veneza. Na Praça de São Marcos a onda de turistas está ausente, os pombos estão dormindo, a catedral apresenta-se em sua majestosa solidão.

Esplendidamente iluminada, deixando perceber o branco reluzente do mármore, seus pormenores e a linha geral do conjunto.

Nesta magnífica catedral de São Marcos distinguem-se três profundidades.

Em primeiro lugar as arcadas, que têm como centro um arco maior apresentando magnífico mosaico, e acima dele um terraço.

Em seguida a parte superior desse primeiro corpo do edifício, com uma espécie de ogiva central muito grande.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Nossa Senhora de BRUGES: síntese feliz do talento flamengo e da piedade espanhola


Luis Dufaur
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Num primeiro momento a igreja de Nossa Senhora ‒ Notre Dame em francês e Onze-Lieve-Vrouwekerk em flamengo ‒ de Bruges é confundida com a catedral da cidade.

A razão é ser ela a maior igreja católica da cidade.

Destaca-se por uma torre medieval de 122 metros de altura que é a mais alta de Bruges.

É, aliás, a segunda maior torre feita de tijolos na Europa.

Os visitantes ficam atraídos por seu caráter e pelas destacadas obras de arte que possui.